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Data: 04/10/2023

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Ibovespa tem em setembro pior volume em 14 meses

A combinação entre juros nominais ainda elevados, na medida em que o Banco Central começou a reverter o longo ciclo de aperto monetário apenas em agosto último, e juros futuros pressionados, em linha com o avanço galopante do rendimento dos Treasuries americanos nas últimas semanas, afetou com força a atratividade da bolsa e, consequemente, o volume de negócios do Ibovespa em setembro.

Segundo dados da B3 compilados pelo Valor Data, o índice teve, no último mês, sua menor média mensal de volume negociado desde julho de 2022, algo como R$ 16,1 bilhões por pregão. Também é o menor valor para o mês de setembro desde 2019, antes do “boom” de pessoas físicas na bolsa, que ocorreu durante a pandemia. O referencial até teve alta de 0,71% no mês, mas com exportadoras de commodities em evidência.

Bancos como Bank of America (BofA)e J.P. Morgan seguem expressando otimismo em relação à bolsa local, mas analistas notam que, no melhor dos casos, a piora no cenário global adia os ganhos. “Continuamos ‘overweight’ [acima da média], pois acreditamos que o impacto positivo das taxas mais baixas a nível local foi apenas adiado. Um fator chave será provavelmente a estabilização das taxas globais. Mudanças tributárias continuam a ser um risco importante, especialmente para as varejistas, mas reconhecemos que os ‘valuations’ parecem cada vez mais atrativos após a liquidação no último mês”, dizem analistas do BofA liderados por David Beker.

Aline Cardoso, chefe da área de pesquisa e estratégia de ações do Santander Brasil, diz que o momento é de baixa convicção por parte de investidores locais e globais, na medida em que ninguém entende totalmente a razão da alta persistente dos Treasuries e por mais quanto tempo a dinâmica pode se estender.

Segundo a executiva, é possível atribuir o estresse dos juros americanos a diversos fatores, como o discurso mais duro do Federal Reserve (Fed) contra a inflação; o processo de “quantitative tightening” (reversão do programa de compras de títulos pelo BC americano), que ocorre enquanto outros grandes compradores usuais de dívida americana, como Japão e China, diminuem o ritmo de alocação; o crescente déficit fiscal americano, que também gera muita emissão de títulos; e a alta do petróleo. Mas ainda assim é difícil saber a sua extensão, diz, o que mantém investidores em compasso de espera.

Dados do banco mostram que setores mais correlacionados com a economia doméstica e com a curva de juros têm apresentado desempenho relativo inferior, enquanto as ações de setores com receitas mais concentradas em dólares demonstram maior resiliência. A correlação entre o índice EWZ, que espelha o mercado brasileiro em Wall Street, e os Treasuries de sete a dez anos disparou de -15% (entre 2018 e o fim de setembro) para 44% (nos últimos dez dias).

“Tive recentemente encontros com investidores globais. Os europeus estão bastante comprados em ações brasileiras – o Brasil representa 6% do ‘benchmark’ de emergentes e conversamos com clientes que têm posições de 9% a 13% alocadas no mercado local. Os americanos, por sua vez, ainda têm espaço para aumentar a exposição, mas afirmaram que estão aguardando ter mais clareza no cenário tributário”, afirma Cardoso. “Acredito que, em relação ao fim de 2022, a grande diferença é que o investidor estrangeiro não tinha nada de Brasil à época, e agora tem. Não senti um movimento vendedor por parte do grupo, mas também não existe grande disposição para aumentar exposição.”

Ainda em relação ao não residente, Jennie Li, estrategista da XP, afirma que a participação do grupo é sazonalmente menor entre junho e setembro, por conta do verão no Hemisfério Norte. Mas o tema atual, diz, é a alta dos juros, o que favorece a saída de fluxo de emergentes para desenvolvidos. A analista entende que, em termos relativos, a percepção sobre o cenário local melhorou ao longo do ano e o Brasil continua sendo uma opção, mas o macro global tem complicado as coisas no curto prazo. Em setembro, o grupo sacou R$ 1,68 bilhão em recursos no segmento secundário da B3 (ações já listadas), mas comprou R$ 9,75 bilhões no mercado futuro.

“Localmente, a componente Selic continua tirando fluxo da bolsa. Além disso, ainda em termos domésticos, as incertezas fiscais e tributárias têm atrapalhado. Conversando com assessores de investimento, fica claro que o interesse dos clientes por renda variável aumentou, mas a volatilidade recente não ajuda. Assim, eles têm preferido teses menos instáveis, como fundos imobiliários ou carteiras voltadas para dividendos”, diz.

Interesse por renda variável cresceu, mas a volatilidade recente não ajuda. O cliente prefere teses menos instáveis”
— Jennie Li
Raphael Figueredo, estrategista-chefe da Eleven Financial, nota que, passada a empolgação com o início do processo de flexibilização, o mercado se viu obrigado a revisitar rapidamente a discussão sobre a Selic no fim do ciclo porque existe dúvida se o governo federal conseguirá zerar o déficit fiscal, o que também fez o mercado perder ‘momentum’ e atratividade.

“E o rali registrado entre abril e junho ocorreu de forma muito rápida, fazendo com que muitos investidores não conseguissem aferir ganhos. Isso, por sua vez, pode ter feito com que a dinâmica de resgates voltasse a piorar e que esse dinheiro não voltasse ao mercado até agora”, afirma. Os fundos multimercados registraram resgates de R$ 12,38 bilhões em setembro, enquanto os produtos de ações captaram R$ 381,7 milhões.

Ainda assim, Figueiredo entende que o desencaixe entre os ciclos econômicos no Brasil e nos EUA poderá ajudar os ativos locais à frente. “Enquanto os EUA estão subindo juros, o que tende a segurar a atividade, o Brasil está no caminho oposto e, em algum momento, o mercado tende a precificar isso. E temos tido sinais nesse sentido, com a volta de ofertas, M&As. Acredito que o fluxo pode voltar quando essa diferenciação ficar mais clara. Mas precisamos fazer o dever de casa também, dar credibilidade para o fiscal”, afirma.