O Nordeste tem suas individualidades. Cada estado da região celebra e expressa a cultura com um recorte e uma sensibilidade diferentes. São muitos Nordestes. Assim se expressam também os artistas que produzem moda e design e pertencem à curadoria da Nordestesse – plataforma que fomenta a criatividade autoral desse grupo e que, ao lado da multimarca Dona Santa, desembarca no Shopping Iguatemi, em São Paulo, nesta sexta-feira (6) em uma pop-up store de 150 metros quadrados. A loja fica aberta até janeiro de 2024,
Com mais de três décadas de experiência no varejo em Recife, a Dona Santa cresceu em um modelo de vendas em que ter um pool de grifes era uma das melhores formas de se estar no mercado da moda. Hoje, também abrange uma marca própria, comandada pela diretora criativa Juliana Santos. Herdeira do negócio criado pela mãe, Lilia Santos, ela começou na loja como a ponta final com as marcas, fazendo a curadoria para o ponto de venda. Acompanhou de perto as transformações dos desejos das consumidoras e, por isso, aposta em peças que têm total conexão com a cidade em que nasceu, deixando para trás a percepção estereotipada do que é a roupa feita no Nordeste. “Usamos linho, alguns com estampas exclusivas, tricoline e crochê com construções que não tornam os produtos estereotipados. Tem muito bordado à mão, e o diálogo é com uma moda atemporal, para uma mulher que gosta de estar bem vestida”, diz Santos.
A Nordestesse, fundada pela jornalista Daniela Falcão e pela advogada Gabriela Falcão, que são irmãs, apresenta a moda original e sofisticada que já vibra no Nordeste – com marcas como Olar Olaria (CE), Boah (BA), Rush (PE), Vero Chapéus (PE) e Catarina Mina (CE) – à “meca do luxo” de São Paulo. “Escolhemos abrir a loja com uma curadoria de vocação resort, justamente porque o paulistano se veste desse espírito nesta época do ano. E para os estilistas, é um desafio interessante trabalhar fora dos mercados locais, com uma realidade diferente do que se tem em São Paulo, sobretudo no shopping Iguatemi”, comenta Daniela.
A aproximação do Nordeste e do Sudeste, neste caso, tem essa proposta: resgatar o “clima de resort” em dias que pedem roupas leves e ambientes decorados precisamente com peças sofisticadas e pautadas na manualidade.
Para Celina Hissa, que está à frente da Catarina Mina, estar no Iguatemi é consagrar o “feito à mão conectado com o mundo” para seguir contando histórias por meio de bolsas feitas no Ceará. “Representamos o artesanato, a memória e o feminino, com as guardiãs dessas memórias que são as artesãs”. A marca, que vende em outros pontos físicos e também exporta para Europa, Estados Unidos e Caribe, entre outras regiões, celebra a chegada no shopping. “Cada vez mais as fronteiras físicas estão diminuindo, inclusive porque São Paulo é a segunda região em que mais vendemos”. Já Catherine Vasconcelos, diretora da beachwear Rush, indica que apresentar a coleção verão ali é um marco para a produção pernambucana. “Estamos levando duas coleções, uma com Mestre Nuca e outra assinada por Espedito Seleiro, que é o lançamento desta estação. Nossas peças em tecidos naturais de linho e seda encantam pela sofisticação e conforto, além de termos uma moda praia sustentável, com biquínis e maiôs biodegradáveis”.
Juliana afirma que o core desta pop-up, que tem ainda projeto do escritório de arquitetura pernambucano Santos e Santos, é dar uma reviravolta nos estereótipos para valorizar a produção nordestina. “Há um caminho para ser trilhado, mas já percebemos que existe uma força de consumo grande no Nordeste, que estamos valorizando a moda nacional”, explica.
“Modéstia à parte, a Nordestesse vem trazendo a moda regional com apelo global. E o Nordeste tem uma vantagem: mesmo com a revolução industrial, há saberes ancestrais e manualidades que foram preservadas. As pessoas de São Paulo me pedem indicação de crocheteiras e bordadeiras, que é uma mão de obra finíssima, e que é mais difícil de se encontrar no Sudeste. Acredito que a região tem esse traço, de ‘saber viver no verão’, fugindo da visão caricata. A gente tem a renda de bilro, os bordados, mas também entra o papel do designer”, acrescenta Daniela.