Os ativos locais responderam, mais uma vez, à alta firme observada nos rendimentos dos Treasuries e anotaram um novo pregão de desvalorização ontem. Após algum alívio observado no mercado americano de juros no fim da semana passada, a primeira sessão do mês de outubro voltou a ser marcada por um movimento de aversão a risco ao redor do mundo, o que derrubou o Ibovespa de volta à marca dos 115 mil pontos e impulsionou o dólar e os juros futuros.
O principal índice da bolsa local fechou o dia em queda de 1,29%, aos 115.057 pontos, enquanto o dólar comercial fechou a sessão em alta de 0,79%, negociado aos R$ 5,0662.
A sessão foi marcada pela nova elevação nas taxas dos títulos do Tesouro americano, fator que tem aumentado a cautela dos operadores de mercado nas últimas semanas. Ontem, a diretora do Fed, Michelle Bowman, afirmou que a inflação americana deve desacelerar lentamente, o que demandaria mais uma alta de juros este ano e um período extenso de política monetária restritiva. Já o vice-presidente para supervisão do BC americano, Michael Barr, disse que demorará algum tempo até que o Fed possa reduzir o nível de restritividade imposto às condições financeiras na maior economia do mundo.
Assim, o rendimento da T-note de dois anos passou de 5,054% a 5,112%, enquanto a taxa da T-note de dez anos saltou de 4,579% para 4,676%. Na bolsa de Nova York, o impacto da alta dos juros foi mais difuso e o Dow Jones recuou 0,22%; o S&P 500 teve alta marginal de 0,01%; e o Nasdaq avançou 0,67%.
O que está fazendo efeito é a curva de juros nos Estados Unidos”
— Ruy Alves
Entre outros efeitos disparados pela elevação dos juros longos nos Estados Unidos, economistas e operadores de mercado vêm demonstrando cautela com a possibilidade de o Banco Central promover um ciclo de afrouxamento monetário muito extenso no Brasil. Isso vem se refletindo na precificação para a taxa Selic ao fim do ciclo, que ontem era esperada ao redor dos 10,5% em meados de 2024.
O estrategista-chefe da Warren Rena, Sérgio Goldenstein, aponta também que, na semana passada, a parte curta da curva, que precificava a partir de dezembro alguma possibilidade de aceleração do ritmo de ajuste para 0,75 ponto percentual, passou a incorporar uma possibilidade minoritária de desaceleração do ritmo, para 0,25 ponto percentual.
Assim, as taxas dos juros futuros já se situam acima da marca dos 11% em quase todos os vencimentos da curva. No fechamento do dia, a taxa do DI para janeiro de 2025 saltou de 10,83% para 11,035%; enquanto a do DI para janeiro de 2027 avançou de 10,80% para 11,045%.
O gestor de macro global da Kinea, Ruy Alves, diz que, ainda que haja incertezas sobre a política fiscal no Brasil, o fator ainda não tem exibido efeitos sobre a taxa de câmbio. “O que está fazendo efeito é a curva de juros nos Estados Unidos”, diz. “No primeiro semestre, havia muitos investidores precificando recessão para os Estados Unidos e gradualmente foram vendo que isso não iria acontecer, e por isso, tiveram que tirar os cortes [das taxas de juros pelo Fed] das curvas de juros lá fora”, afirma.
Para Alves, não é possível apontar, neste momento, um limite para o movimento de alta dos juros. “O fator limitador natural é a desaceleração da economia americana e a convergência da inflação por lá. Fundamentalmente, diante deste cenário, é difícil imaginar que as taxas longas saiam do controle, mas tecnicamente, não. Porque as taxas já romperam vários níveis. É um movimento técnico muito forte”, afirma o gestor da Kinea.