A fabricante de materiais de construção Saint-Gobain reduziu sua expectativa de crescimento de receita para 2023, de 15% para 5%. O primeiro semestre teve resultados piores do que esperado, afirma o presidente da companhia para a América Latina, Javier Gimeno, que diz estar otimista com o resto do ano e 2024.
A empresa é dona das marcas Quartzolit, Brasilit e Cebrace, entre outras, além das redes de varejo Telhanorte e Tumelero.
A companhia apresentou em 2022 crescimento de 12% em receita, impulsionado por altas nos preços – ainda menores do que a inflação, afirma Gimeno – e por mudanças no mix de vendas, com ganho de valor agregado. Em volume, as vendas caíram 7%.
O primeiro semestre deste ano também teve queda no volume vendido, de 11% no total. Mas a situação começa a mudar. “A partir de julho começamos a observar uma inflexão dos volumes de vendas”, afirma, o que justifica o otimismo de Gimeno para o desempenho do país. “Estamos esperando um crescimento importante tanto de volumes quanto de valor de venda em 2024”.
Essa melhora já era aguardada, mas chega seis meses atrasada, ao menos para a previsão do executivo, que esperava uma resposta mais rápida da economia.
As principais alavancas para a recuperação que a Saint-Gobain começa a sentir são o início da queda da taxa de juros e a inflação controlada, que devem levar a uma volta do consumo. O programa Minha Casa, Minha Vida é outro indutor de otimismo, segundo Gimeno, por movimentar toda a cadeia da construção. Ele também aguarda um retorno mais forte de outros lançamentos imobiliários, quando a redução da Selic baratear o crédito imobiliário.
Há ainda o novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), importante para a atuação da empresa em sistemas de condução de água, e a expectativa pela reforma tributária.
Cerca de um quarto das vendas da Saint-Gobain vem do varejo. Ali, a queda na comercialização foi de 20%, sem retração de “market share”. Na Telhanorte, Gimeno diz que estão aproveitando o período de vendas fracas para fazer mudanças no modo de operação, o que incluiu uma troca da diretoria executiva de operações e mudanças em outros cargos.
A partir de julho observamos uma inflexão dos volumes de vendas”
— Javier Gimeno
“Para poder acelerar a movimentação, você precisa mudar as equipes, porque tem uma inércia do passado que precisa ser quebrada”, diz. O objetivo é conseguir um negócio mais leve, eficiente em suas compras e com mais atenção para o digital e os serviços.
As mudanças são uma forma de correr atrás da concorrência, especificamente da também francesa Leroy Merlin, que “tem feito um excelente trabalho”, reconhece Gimeno. A estratégia da Telhanorte tem sido oferecer mais serviços, como decoradores e arquitetos que ajudem a pensar em soluções e acompanhem os projetos dos clientes, e a inauguração de lojas menores e focadas em materiais de alto padrão. Tudo isso, no entanto, com cautela. “É um conceito que está funcionando bem, mas ainda não tenho certeza de que pode ser replicado de forma massiva”.
Segundo o presidente, a Saint-Gobain recebeu propostas pela rede de varejo de materiais, mas não fechou negócio. A Telhanorte não está à venda, afirma. Entretanto, ele reforça que a Saint-Gobain é “um animal vivo” e que essas decisões dependem de condições de mercado e da estratégia de longo prazo da empresa.
O Brasil é responsável por cerca de dois terços de todas as vendas da Saint-Gobain na América Latina, que registrou € 1,2 bilhão em vendas no primeiro semestre, segundo o balanço da companhia.
A empresa reinveste 5% das vendas feitas no país, sendo que 1% vai para medidas de descarbonização, afirma Gimeno. A Saint-Gobain tem a meta de reduzir suas emissões em 33% até 2030, em relação a 2021, e atingir o ponto de neutralidade das emissões até 2050.
Na comparação com outros países latinos, essas metas são mais fáceis de alcançar no Brasil, explica, por causa da matriz energética, considerada limpa. No México, por exemplo, onde a origem fóssil tem peso maior, a meta de 2030 deve ser cumprida de forma justa. Por aqui, a expectativa é ultrapassá-la.
As principais medidas adotadas pela Saint-Gobain no país são substituir o uso de combustíveis fósseis, como o gás natural, muito usado na produção de vidro, por eletricidade, onde for possível, e tornar processos mais eficientes para reduzir o gasto energético. Com isso, de janeiro a agosto deste ano, as emissões recuaram 6% na América Latina.
Uma alternativa que está sendo implementada pela empresa é substituir o gás natural por biometano. A Saint-Gobain fez isso em três de suas 58 fábricas brasileiras. A produção de biometano ainda é limitada, ressalta Gimeno, e sua distribuição é feita por caminhões. Uma adoção mais geral do biogás vai depender do aumento da sua produção e da construção de dutos.