Com o mercado do títulos do Tesouro dos Estados Unidos (Treasuries) em busca de acomodação após o estresse observado ao longo de toda a semana, os juros futuros corrigiram os excessos nesta sexta-feira (29) e encerraram o pregão em queda.
As incertezas relativas ao cenário externo, porém, continuam no radar dos participantes do mercado e se somam às indefinições domésticas no campo fiscal e impedem uma descompressão de prêmios de risco ainda mais relevante no mercado de juros.
No fim dos negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 passou de 12,255% para 12,24%; a do DI para janeiro de 2025 caiu de 10,965% para 10,84%; a do contrato para janeiro de 2026 recuou de 10,76% para 10,58% e a do DI para janeiro de 2027 cedeu de 10,99% para 10,81%.
Vale destacar que a descompressão de prêmios também voltou a ser observada na curva de juros reais, como ocorreu na sessão de ontem. Dados preliminares da Necton mostram que a taxa da NTN-B para agosto de 2030 caiu de 5,676%, na quinta (28), para 5,59%, enquanto a da NTN-B para agosto de 2060 recuou de 5,942% para 5,87%.
O exterior continuou a guiar a dinâmica do mercado de juros ao longo de toda a sessão. Antes mesmo da abertura, a intervenção do Banco do Japão (BoJ) no mercado, com compra de títulos de longo prazo, e os números abaixo do esperado de inflação na zona do euro deram espaço para uma abertura dos juros futuros em queda. O movimento se consolidou ao longo do dia, especialmente após os números de inflação nos Estados Unidos, que vieram em linha com as expectativas e deram apoio aos mercados. No fim da tarde, o rendimento da T-note de dez anos operava praticamente estável, a 4,582%.
“Nos últimos dias, a curva de juros ficou mais achatada devido às ordens de ‘stop-loss’ no ‘miolo’ [vértices intermediários] e, hoje, ela voltou a ganhar inclinação. A posição técnica estava muito mais limpa no ‘miolo’ da curva e, portanto, estava livre para uma atuação mais firme”, observa o trader de renda fixa de um grande banco local. Ele nota, porém, que, durante a etapa vespertina dos negócios no mercado de juros, as taxas se afastaram das mínimas do dia, assim como os rendimentos dos Treasuries.
“Os estrangeiros estiveram bastante ativos neste fim de mês e o fluxo líquido foi de compradores de títulos locais. Os níveis são bastante convidativos para quem deseja aplicar, com o mercado precificando a Selic ‘terminal’ acima de 10%, um nível super-restritivo, mas os players só ganharão confiança para construir grandes posições aplicadas quando o cenário externo se acalmar”, diz. Para o profissional, isso só deve se materializar quando o mercado observar números mais fracos de crescimento nos EUA.
Além dos componentes externos, profissionais do Santander apontam que a manutenção da perspectiva fiscal negativa, diante da incerteza sobre a convergência a longo prazo da dívida pública “pode ter ajudado a acentuar o sentimento de aversão a risco em toda a curva” ao longo da semana. “Dado o início do ciclo de flexibilização monetária, as incertezas fiscais e as perspectivas globais, acreditamos que a curva de juros deverá continuar a se inclinar mais à frente”, aponta a equipe comandada pela ex-secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vescovi.